Minha mãe nasceu no dia 11 de março de 1948.
Com 11 anos veio morar em Curitiba para trabalhar de empregada doméstica.
Com 18 conheceu meu pai e casou, não casamento tradicional, com Igreja ou Tabelião, casou da maneira mais verdadeira, casou porque amava e já esperava um filhinho, o primeiro de cinco.
Quando fez 30 anos, juntou os cinco filhos e mais um cachorrinho vira-latas e foi embora, meu pai apesar de ser um homem lindo e trabalhador tinha um vício, era alcoolátra, bebia muito e quando bebia ficava violento, ameaçava bater nela e uma vez ameaçou matá-la.
Com 5 filhos, ela se virava como podia, fazia faxinas de segunda a sábado, e com o pouco tempo que tinha para ficar em casa, ela trabalhava muito, limpava a bagunça feita por cinco crianças, cozinhava, ia ao mercado e as vezes ainda arrumava tempo para nos dar uma mimada, fazendo bolo, pipoca ou sorvetinho de congelador.
Quando tinha 32 anos conheceu meu padrasto, nessa mesma época começou a trabalhar no Restaurante Universitário como copeira(foi subindo de posto até se tornar chefe) e nossa vida apesar de dificil ficou um pouco mais leve, e essa leveza veio com meu padrasto, não porque ele nos dava suporte financeiro, mas porque ele nos ensinou a aproveitar mais a vida com coisas simples.
Mais ou menos quando minha mãe tinha 35 anos meu padrasto veio morar conosco, eu que sempre brincava que "Éramos Seis", subimos o posto para 7, e éramos felizes assim.
Com os filhos crescidos, os dois mais velhos começaram a trabalhar para ajudar minha mãe a realizar um sonho, o de construir uma casa maior, e esse sonho ela realizou.
Quando minha mãe tinha 38 anos sofreu o maior golpe do destino que uma mãe pode sofrer, perdeu um filho de 17 anos. Ela não chorava na nossa frente, não sofria e nem perguntava a Deus o por quê dela sofrer tal golpe, ela se resignou, mas nos os filhos sabíamos que ela sofria e a supriamos de um amor extra e chegavamos até a mimá-la, cada um ao seu modo.
Passado um ano dificil, um natal beirando o triste, minha mãe deu a volta por cima.
Voltou a sorrir de maneira espontânea, não apenas para nos mostrar que ela sobreviveria a perda, mas porque a vida voltou a sorrir para nós.
Saiu para conhecer um pouco mais do Sul do país, passeou pelo Rio Grande e Santa Catarina,e uma única vez foi ao Rio de Janeiro, voltou encantada com ele, e passou esse amor pelo Rio para mim.
Quando tinha 43 anos seu filho mais velho casou-se, ela estava um pouco a avessa com o casamento, mas organizou tudo de maneira bonita e simples em um mês. Fez com gosto, porque se não era assim, ela nem fazia.
Em 1994, a espera da primeira neta era o assunto da família, tudo era para essa pequena criatura que todos esperavamos com ansiedade, minha mãe organizou o enxoval completinho da netinha que tinha data prevista para chegar em março.
No carnaval desse ano, numa terça-feira dia 15, minha mãe fechou os olhos e continuou o sono que começou na segunda. Morreu dormindo, calmamente, como ela mesma havia falado para mim que queria, teve um infarto fulminante, morreu sorrindo e pode conhecer a neta antes da gente.
Minha mãe era de uma força que vi em poucas mulheres, era alegre e intensa. Dela eu herdei os lábios(superior fino e inferior grosso), a voz aguda quando fico nervosa, a mania de ariar as panelas(heheheh), a necessidade de casa limpa e organizada e o gosto por pessoas. De bens materiais fiquei com alguns colares, brincos e as louças.
Sinto falta dela em alguns momentos da minha vida, quando o Caio nasceu eu queria muito ouvir que ele tinha algo parecido comigo, porque todos só falavam que era a cara do pai, eu queria ver ela ajudando a organizar a festa de 15 anos da primeira neta, queria ver todas as crianças, no total de 10, na casa da avó, comendo bolo de chocolate e bis(que ela sempre tinha), ela organizando passeios a parques e rios para piquiniques, porque ela adorava fazer isso.
Veja só como somos parecidas, eu ainda não havia me dado conta de que usavamos o cabelo partido para o mesmo lado!